Como tratar uma ‘queimadura’ de água-viva

Todo verão é a mesma coisa: a temperatura aumenta e as pessoas querem se refrescar e relaxar nas praias. Coincidentemente, as águas-vivas e caravelas – cnidários que podem causar as famosas “queimaduras” – também são mais comuns nas praias nesta época do ano, provavelmente devido ao seu período de reprodução, o que aumenta as chances de encontro com banhistas.

Tanto águas-vivas (à esq.) como caravelas (à dir.) são cnidários que podem causar lesões em banhistas conhecidas por “queimaduras” por conta das suas substâncias urticantes. © Pinkiekoi & vitormarigo | Shutterstock.

Mas qual é o certo a se fazer quando for “queimado” por uma água-viva ou caravela? Quem nunca ouviu que devemos colocar urina no local do ferimento para aliviar a dor? Será que isso é mesmo certo? Para esclarecer todas as dúvidas a respeito deste assunto, conversamos com o Dr. Vidal Haddad Junior, dermatologista e professor da UNESP-Botucatu e um dos maiores especialistas no assunto.

Em primeiro lugar, temos que entender do que se trata o ferimento. Embora o termo “queimadura” seja muito utilizado para se referir aos ferimentos causados por estes animais, o contato com águas-vivas causa um envenenamento, com dor em ardência e marcas de inflamação muito similares às causadas por queimaduras.

A lesão provocada é proveniente do contato com pequenas células especializadas presentes especialmente nos tentáculos dos cnidários, os cnidoblastos ou cnidócitos. Estas células parecem uma bolsa e guardam uma “arma” que auxilia as águas-vivas e caravelas na sua defesa. O cnidoblasto é acionado assim que tocado e libera de dentro dele uma espécie de arpão que atinge a vítima. Este arpão se chama nematocisto e apresenta uma substância urticante que causa irritação e até paralisia em pequenos animais.

Nematocisto antes e depois da descarga. © Designua | Shutterstock.

Segundo o Professor Vidal, “a quantidade de veneno injetada é variável, podendo causar desde marcas pequenas e dor discreta até comprometimento de grandes áreas e problemas respiratórios e cardíacos, que podem provocar até a morte. No Brasil a maioria dos acidentes são leves a moderados e não comprometem órgãos além da pele, mas existem algumas espécies com potencial de se associarem a acidentes graves”.

Tratamento

De acordo com o Professor, o tratamento ideal deveria empregar o uso de soro contra o veneno, entretanto este não existe. Por isso, recomenda-se como medida de primeiros socorros a utilização de água do mar gelada em compressas para anestesiar o local, além de banhos de vinagre – o que impede as células venenosas ainda aderidas na pele de dispararem e aumentarem ainda mais o envenenamento. “Estas medidas costumam controlar os acidentes no Brasil e podem ser aplicadas ainda na praia, o que é uma vantagem imensa. Remédios para dor, se necessários, devem ser aplicados em um hospital”, ressalta o Professor.

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E o xixi? E água-doce? O que mais pode ser usado? Segundo o Professor Vidal, qualquer medida que não tenha sido mencionada acima NÃO DEVE SER UTILIZADA, pois não há evidências científicas de sua eficácia e algumas delas podem causar infecções ou aumento da inflamação local. A água doce em especial dispara os nematocistos íntegros por osmose e aumenta o envenenamento, por isso jamais deve ser utilizada.

Quando procurar ajuda médica?

Na maior parte dos casos, os acidentes por cnidários no Brasil não causam nada muito grave. “Caso haja a formação de bolhas e feridas é interessante procurar um médico, mas se não houver complicações na pele, o problema acabou quando a dor passou”, ressalta o Professor Vidal.

Sempre vale lembrar que, assim como diz o velho ditado, “é melhor prevenir do que remediar”. Por isso não entre na água se souber que houve acidentes nas proximidades ou quando caravelas e águas-vivas estiverem na água.

Não nade quando houver águas-vivas ou caravelas na água. © IceDesigner | Shutterstock.

Fonte: Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

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